A publicidade da fé: A arte de não se preocupar com o fugitivo


Paulo escreve uma carta particular a um homem chamado Filemon. É a mais breve e pessoal de suas cartas. O apóstolo lembra que o escravo fugitivo Onésimo deve ser tratado como irmão em Cristo, apesar de suas atitudes. Paulo não incentiva uma revolução social, apenas afirma que a comunhão dos santos é superior a qualquer estrutura social construída sob a perspectiva humana.

Mas o foco do apóstolo está na atitude de Filemon. Afinal, vale o que se mostra, e após a crise criada pelo escravo restará o testemunho da própria fé. Por que se preocupar com Filemon quando o fugitivo é Onésimo? A resposta é simples. Ao escrever "que a comunhão (comunicação, partilhamento) que procede da sua fé seja eficaz no pleno conhecimento de todo o bem que temos em Cristo" (Fm 1.6), Paulo mostra que uma "propaganda"  será gerada pela atitude de Filemon.

É a publicidade da fé. Não me refiro às construções medíocres que utilizam o Evangelho para objetivos meramente pessoais. Refiro-me a homens e mulheres eficazes "no pleno conhecimento de todo o bem que temos em Cristo".

Ser um publicitário da fé significa utilizar integralmente a vida como um perfeito espaço de comunicação. Significa ser criativo, dinâmico, relacional e eclético. Significa ter bom testemunho pautado pelo saber de Deus. Significa planejar, produzir, pesquisar e veicular suas "campanhas" publicitárias com ética e coerência às Sagradas Escrituras.Jesus foi um bom judeu, cumpridor das regras cerimoniais, frequentador de sinagogas, leitor e expositor dos profetas, conhecedor dos contextos social e político do seu tempo. Paulo utiliza-o como exemplo de comunicação porque as perspectivas do Mestre são imprescindíveis.

Um publicitário da fé deve ser um comunicador PRESENTE. Deus se tornou visível em seu Filho. Nele, o som de Deus foi ouvido e a imagem de Deus foi vista.

E Paulo sabia disto. O pedido a Filemon demonstra o seu cuidado com a imagem da igreja nascente em um mundo decaído. Jesus comunicou em companhia das pessoas, explicando as Escrituras, sendo empático e simpático a todos. Somente comunica a verdade quem for gente de verdade, somente quem entende a humanidade acolhe e conhece a necessidade das pessoas através do seu trabalho publicitário.

Um publicitário do Reino de Deus não apenas anuncia o Evangelho, mas mostra que a sua própria vida é fruto da Boa Nova. É preciso "ser" humano semelhante aos destinatários da mensagem para usar palavras e imagens que preservem a vida. Enfim, para Paulo, não é possível viver sem comunicar. Ou se decide comprometer-se com a comunicação do conhecimento do bem ou acaba-se comunicando o que não vem de Deus.

Em segundo lugar, um publicitário da fé deve ser um comunicador consciente. Paulo orientou Filemon à verdadeira publicidade da Boa Nova quando lhe pediu cuidado com o "caso Onésimo".

Comunicar significa ser capaz de fornecer soluções originais e eficientes a clientes diversos. E a Bíblia é a resposta integral para vidas integrais. Mas aí reside um paradoxo. Exige-se também curiosidade, inquietação e observação cotidiana concomitante ao testemunho da paz, do consolo e da presença de Deus em qualquer realidade. Assim se tem consciência do mundo.

Jesus comunicou diversos modos e métodos com intensidades diferentes a públicos diferentes. Usou uma linguagem adequada para evidenciar a capacidade comunicativa na relação entre ser e estar. Ao falar ensinava e ao ensinar mostrava autoridade: "Jamais alguém falou como este homem" (Jo 7.46).

Finalmente, um publicitário da fé deve ser um comunicador SUFICIENTE. Antes da obra redentora de Jesus havia muito ruído e distorção na comunicação com Deus. Ao ser preso, acusado, julgado e condenado, Jesus evidenciou a existência de um sistema anti-comunicativo. A cruz foi o último grito da comunicação incoerente.

No madeiro cruel, a mensagem foi entregue, consumada e "morta". Mas morre perdoando a todos, a comunicação contemplativa de um Jesus morto mostrava apenas o que parecia ser óbvio: a morte havia silenciado a comunicação.Mas Paulo sabia que "Deus amou tanto mundo, que entregou o seu único Filho, para todo que nele crê não morra, mas tenha vida eterna" (Jo 3.16). E dias depois, eis que surge a nova vida, de novo!

O sepulcro vazio tornou-se o símbolo da não-comunicação, pois quem anuncia o desaparecimento do corpo comunica a chegada de uma nova publicidade! Jesus rompe o silêncio ao comunicar a sua presença com palavra e suficiência, torna pública a obra de Deus ao mostrar marcas nas mãos e desejar paz a todos. Paulo sabia de tudo isto e pediu para que Filemon lembrasse que aquele que estava morto tornou a viver. O Espírito de Deus tornou-se a força comunicativa a fim de que todos reconheçam que Jesus é Senhor e Salvador.

Todo homem e toda mulher que assumem o papel de um comunicador deve saber que a publicidade de Jesus é a resposta comunicativa a um mundo guiado pela dinâmica das mais altas tecnologias, mas que tem se mostrado incapaz de comunicar vida de verdade.

Vivemos em um mundo carente de comunicação coerente. Esqueça o fugitivo. Precisamos de excelentes "publicitários" da fé.

Autor: Cleison Mlanarczyki. Bacharel e Mestre em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana e em História pela Universidade Estadual de Londrina. É pastor da Primeira Igreja
Batista em Ijuí/RS e trabalha com formação e aperfeiçoamento de líderes na área de relacionamentos.

Fonte: Disponível em http://www.institutojetro.com/artigos/comunicacao-e-marketing/a-publicidade-da-fe-a-arte-de-nao-se-preocupar-com-o-fugitivo..html. Acesso em 21 de janeiro de 2014.

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