Princípio de Comunicação em Liderança


Pragmática da Comunicação Humana é o título do livro publicado em 1967 por três pesquisadores do comportamento humano pela teoria psicológica sistêmica, Watzlawick, Beavin e Jackson.
O livro trata de axiomas básicos da comunicação humana, seus padrões e suas patologias. Um primor para o estudo da comunicação em liderança. 

Comportamento é comunicação
Para os autores, toda comunicação possui sintaxe, semântica e pragmática. Sintaxe é a estrutura utilizada por toda e qualquer comunicação humana, como os canais, os códigos. A semântica se preocupa com o significado que é sempre convencionado por um grupo. Já a pragmática é o estudo do que é afetado na psique humana devido à comunicação. Pragmática é Psicologia.

Dentro da pragmática da comunicação, os autores apresentam um axioma básico: é impossível não se comunicar. Os autores com isso querem dizer que o comportamento está sempre comunicando. É impossível não se comportar. Mesmo parado, você está se comportando e logo, comunicando.

Para entender um pouco mais sobre isso, você poderá ler o texto Motivações Ocultas dos Liderados, pois expõe de forma simples uma forma de comunicação latente não dita por palavras e para a qual o líder deve se atentar a fim de não se perder na liderança. 

Podemos estender este primeiro axioma à história comportamental do líder. Como o objetivo básico da liderança é a influência, precisamos concluir que tudo o que o líder faz e fez contribui para comunicar algo. Comportamento é sempre comunicação.

Logo, o seu histórico comunica ao grupo algo de você.  Seus diplomas, sua formação, seu caráter, sua rede de relacionamentos, os lugares onde passou, tudo serve para dizer do líder. Nesse sentido, a comunicação extrapola o mero sentido de passar informação por um código específico e se define também de maneira mais genérica pelo histórico do comportamento emitido pelo líder.

Logo, líder, você precisa entender que tudo em você é comunicação. Porque comunicação é tudo o que você faz e não somente o que você fala. Assim, derruba-se o mito de que conceitos como: clareza, dicção e objetividade são primordiais em comunicação de liderança. O líder precisa ver comportamento como sinônimo de comunicação, já que "o que você faz fala tão alto que ninguém escuta o que você diz.". O líder comunica mais por comportamento do que por fala.

Há muitos líderes incongruentes e por isso não logram êxito em seus processos de influência. Para ver se você é incongruente, ouça as pessoas ao seu redor, aceite críticas, analise-as, isso aumenta o poder de introspecção. Só com introspecção conseguimos corrigir aspectos de incongruência em nossa personalidade. Incongruência é sempre quando o que você prega destoa de seus comportamentos.

A comunicação implica um comprometimento
Um segundo axioma da pragmática da comunicação humana é que toda e qualquer comunicação implica um cometimento e um compromisso que define a relação. Isso significa que ao comunicar-se você separa indiretamente para o outro um espaço, uma expectativa, um papel social, um lugar na relação que você estabelece com ele.

Por exemplo, se o líder for de comportamento detalhista obsessivo, ele será chato. Sendo chato, comunica indiretamente que quer todas as tarefas nos mínimos detalhes. Assim sendo, o líder reserva ao outro o papel de paranóico, aquele que está sempre perguntando: "será que está bem assim, ele vai gostar? Ah acho que não."

Há muitos lideres que em sua forma de comunicação não percebe o espaço que reserva para o liderado. Líderes carismáticos em sua comunicação reservam o espaço de bem-estar, por isso são seguidos com boa-vontade. Líderes autoritários definem a relação como submissão e por isso são reprimidos em alguns ambientes.

Leia o texto As 7 Dimensões da Liderança onde abordo a necessidade de o líder se adaptar  aos seus diversos contextos sociais para influenciar com eficiência e eficácia.

Para que o líder saiba qual a relação que ele está acometendo aos liderados é só prestar atenção à sua imagem no grupo e à reação apresentada pelo grupo aos comportamentos emitidos pela liderança. Sua ação determina a forma de sua influência. Sua comunicação implica um comprometimento de espaço social nos liderados.

Assim, derruba-se o mito de que comunicação é dar ordens e informações e tarefas. Esse processo de comprometimento através da comunicação é indireto, inconsciente e acontece involuntariamente.
Devido a esse aspecto inconsciente, a mera enunciação de uma ordem não significa seu cumprimento por parte de alguns liderados rotulados equivocadamente como rebeldes.  Rebelde é o líder que não entende de pragmática da comunicação humana.

Logo, para ver o que você compromete ao comunicar, observe o grupo. Aqui o processo é o contrário da introspecção do primeiro axioma. É um processo de extrospecção, se me permitem o neologismo oportuno.  Olhar para fora, para o grupo, estudá-lo e não considerá-lo como rebelde ou sem preparo para entender mensagens.

Na comunicação, o ontem influencia o hoje
Um terceiro e último axioma da pragmática da comunicação apresentado aqui por conta de espaço é que a comunicação é fluida e pontua sequencialmente os eventos. Ou seja, o que você comunica está ligado ao que aconteceu antes e vai influenciar o comportamento do grupo no depois.

A comunicação não tem uma origem, mas tem um `porque` e um `pra que` que nem sempre será condizente com o resultado obtido por conta dos ruídos de comunicação.

Esse axioma é importante para o líder porque ele precisa identificar que sua comunicação não deve se residir no comportamento do grupo emitido anteriormente e que motivou a sua comunicação atual. Antes sim, o líder deve ter empatia suficiente para identificar o porquê de seus liderados não o entender, não seguir suas ordens, etc.

Como a comunicação é fluida, o inconsciente sempre responde ao histórico das comunicações. Isso é o que sustenta os preconceitos contra um líder, os erros e as distorções de percepção dos liderados, etc. Por isso em relações conjugais, por mais que alguém levante a bandeira de paz, o outro não consegue dar crédito a esse comportamento. Isso porque o histórico de comportamentos de quem levantou a bandeira de paz sempre disse indiretamente do oposto, a guerra.

Assim, quebra-se o mito de que comunicação tem início, meio e fim. Ela é linha no tempo. Você paga pelo que comunicou lá atrás. Isso fica no inconsciente de seu grupo. E ao comunicar, você estará dando continuidade a um processo que não começou, pois nunca teve início.  Uma briga de casal nunca tem um inicio. Geralmente não se sabe onde começou. Quando se vai checar causas, sempre se acha uma anterior à encontrada.

Logo, para não ficar preso nos ruídos da comunicação e para moldar o comportamento dos liderados, o líder deve ser persistente, progressivo e coerente em sua comunicação. Há líderes que chegam hoje numa instituição e já querem mudar tudo sem progressividade, dá para ver que não terão sucesso. 

Para obter coerência e persistência, o líder precisará de determinação e foco para sufocar toda a linha de comunicação que lá atrás se situa no histórico de relações do grupo.

Veja como aprimorar sua capacidade de influenciar no texto Psicopatologias da Confiança na Liderança. Nesse texto exponho alguns equívocos cometidos por líderes durante o processo de liderar.

Bom, leiam o livro: "Pragmática da Comunicação Humana". Sua leitura é de fundamental importância para o entendimento do aspecto pragmático da comunicação humana. Lá encontrarão outros axiomas.

Seu ponto positivo é que a temática apresentada extrapola de uma forma original os clichês mais encontrados nos livros de comunicação e se torna profundo devido à análise empenhada pela Psicologia da Comunicação Sistêmica.

Publicado originalmente no blog http://www.marceloquirino.com

Autor: Marcelo Quirino. Graduado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com Licenciatura Plena em Psicologia pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pós-graduando em Psicopedagogia Clínica e Institucional na Cândido Mendes. Técnico em Administração de Empresas pelo Complexo Educacional Vilar dos Telles. Realizou trabalhos voluntários na UNESCO/Estado do Rio; na ONG Renascer, no INCA e no Governo Federal/SESI. Realizou atendimentos de Psicologia Clínica em Duque de Caxias/RJ. É membro da Primeira Igreja Batista no Guarani - São João de Meriti/RJ há 13 anos e palestrante nas áreas de Psicologia Organizacional, Psicologia e Educação e Relacionamentos. Atualmente é Psicólogo Clínico no Centro de Referência de Tratamento para Crianças e Adolescentes II em Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro.

Fonte: Disponível em: http://www.institutojetro.com/artigos/comunicacao-e-marketing/principio-de-comunicacao-em-lideranca.html. Acesso em: 18 de setembro de 2013.

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