Comunicação em Deus


INTRODUÇÃO

Toda história da humanidade se resume em três atos: Criação, Queda e Redenção. A história e nossa missão precisam ser analisados sob a ótica desses eventos. Jesus é o Senhor de cada parte e do conjunto de nossas vidas, tudo o que fazemos deve ser por ele e para ele: na arte, na cultura, na profissão, no governo, na mídia etc. O ato redentivo se iniciou na cruz e é o dever-ser da igreja, como corpo de Cristo. Por isso precisamos entender a distinção entre a graça “salvadora” e a graça “redentora” (Col. 1:15-20).

I. A criação e a comunicação se originaram em Deus. É por sermos semelhança dele que somos capazes de produzir cultura, pois em João 1:1-3 vemos o “logos” que comunica e que traz à existência através de sua ação comunicativa. A nossa ação comunicativa, o uso da palavra e a interação são capazes de gerar universos culturais.

II. Na Palavra há uma referência aos ministros do Senhor como labaredas de fogo (Sl. 104:4). Seria uma referência às mídias de comunicação? Elas exerceram e exercem um papel fundamental na definição da identidade e na mobilização da comunidade. O sino (com a igreja no centro das vilas), o alto-falante (que substituiu o sino e exigiu especialização na linguagem), as rádios, TV e internet (que exigiram ainda maior qualificação para domínio de suas linguagens), tudo isso são instrumentos para mobilização e comunicação, modelando perfis e definindo identidades. Dessa forma, a mídia é instrumento para exercício do poder, e o Brasil está à mercê de 7 famílias e grupos que controlam 90% dos meios de comunicação.

III. A nossa visão de comunicação, como povo evangélico, assim como nossa visão da arte, tem sido meramente propagandística e instrumental. Elas servem apenas a objetivos evangelísticos, pois não admitimos a “arte pela arte”, como diz Schaeffer. A arte só tem razão e valor se a reduzirmos a propaganda. Mas a “arte pela arte” é bíblica e comunica beleza (II Crônicas 3:6,7,16,17).

IV. A arte e a ciência têm um lugar na vida cristã, não são periféricos, como diz Schaeffer. Uma obra de arte pode ser, em si, uma doxologia (uma expressão de adoração e louvor à Glória de Deus). O que torna a arte cristã não é necessariamente o fato de ela tratar das questões religiosas, pois a arte não precisa ser necessariamente “fotográfica” (como podemos ver nas romãs azuis de Êxodos 28:33). Francis Bacon, Copérnico e Galileu acreditavam que, pelo fato de o mundo ter sido criado por um Deus racional, eles poderiam buscar a verdade do universo por meio da razão. Da mesma forma um artista pode buscar e expor em sua obra de arte as expressões da beleza e da grandeza do Criador.

V. Em Isaías 60:1-6 o Senhor comunica a visão de que todas as culturas virão com suas riquezas diante do Seu Trono. O que tornou Israel especial para Deus foi o rhema, especial mas não “exclusivo”, pois todas as Nações e culturas pertencem ao Senhor. O pecado de Israel e muitas vezes o nosso pecado é esquecermos de que Deus estabelece uma aliança conosco para que sejamos benção para outras pessoas, outros povos e Nações. Como diz Don Richardson, devemos reconhecer o que ele chama de Fator Melquisedeque (aspecto redentivo) e o Fator Sodoma (maldição) em cada cultura, para entender e desfrutar das riquezas das Nações. De forma semelhante, em relação à arte e à cultura, não devemos nos considerar portadores exclusivos de expressão de amor e adoração a Yahweh.

VI. Tendo sido feitos à imagem do Criador, somos chamados à criatividade. De fato, sermos criativos ou termos criatividade faz parte da imagem de Deus em nós. A pessoa que realmente ama a Deus, que trabalha sob o senhorio de Cristo, pode escrever sua poesia, compor sua melodia, confeccionar instrumentos musicais, esculpir estátuas, pintar telas – mesmo que ninguém jamais veja – Ele sabe e vê. Não devemos pensar que Davi era profeta apenas quando escrevia prosa, pois sua poesia era igualmente inspirada. Como podemos dizer ou pensar que Deus despreza poesia? De forma alguma, nem a poesia e nem outras formas de expressão artística. O teatro, por exemplo, é apresentado biblicamente em (Ezequias 4:1-3)  já a dança em Salmo 150, ou seja, Deus se alegra e ama a arte como expressão da criatividade humana.

CONCLUSÃO: Não vamos deixar de comunicar a verdade básica e irredutível do evangelho da salvação do pecador, mas exercer amplamente nossa visão e vocabulário da redenção de todas as coisas criadas. A arte como expressão da alma curada, restaurada, redimida, é responsabilidade do cristão e missão da Igreja. Se o mundo tem se expressado através de uma arte que comunica muitas vezes morte, destruição e apatia, isso se deve ao distanciamento da Igreja de sua missão redentora de todas as coisas em Cristo Jesus.

*Esse texto foi preparado para uma ministração que fiz no Congresso Paixão e Ousadia, realizado em maio de 2010 em Porto Seguro (BA).

Referências utilizadas (e de leitura recomendada):
1. Schaeffer, Francis A. A Arte e a Biblia, Viçosa-MG, Editora Ultimato, 2010.
2. Richardson, Don. O Fator Melquisedeque, São Paulo, Editora Vida Nova: 1995.
3. Horton, Michael Scott. O Cristão e a Cultura, 2a ed, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2006

Fonte: Fidelis Paixão (Gospel+)

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